5 de novembro de 2009

NOVOS POEMAS DE ALEXANDRIAS




TINTUREIRO DO MAR


Tintureiro tintureiro tinturero do mar
tinturero tinturero tinturero do mar:

o vôo do nome,

uma aguada de cor,

mar tingido de mar.


O poema é o céu das palavras.




CORCRETA


Bordadura de gerânios no cálice da janela

meu olhar descortina as coisas para elas

uma idéia laranja; uma azul, outra amarela




CINEMA MUNDI

(OUTRA CANÇÃO DO PINTOR)


Na tela dos olhos do pintor,

o mundo passa colorido
cinema mundi:

é a cor em movimento.

As coisas são em cor

o mundo é em cor

em cor é o próprio pintor




A PALAVRA NO SENTIDO LITORAL


Hacer – acendo

(Eis aí o exemplo da palavra

Tomada

no sentido litoral ).




EMBARCADISSO


Deitava na minha cama, mas no meio da noite passava pra cabeceira do rio

em Ítaca ou Alexandria eu já sabia o que isso quer dizer

era um menino da natureza

meus olhos são o sinônimo perfeito do lugar

nasci à beira-mim, isso é, à beira mar




QUANDO TUDO É VISÍVEL


Primeiro eram as cores

e a luz que cega em cada uma delas,

as memoráveis,

as primícias,

as primeiras,

as primárias,

as derradeiras,

as que eram até mesmo antes do mar,

as que são até mesmo antes do mar,

antes do mar.

Antes de chegarem os verbos de ofuscar,

quando tudo era visível como hoje,

quando tudo é visível.




O CASAMENTO DE LINGUAGEM E MUNDO


Quando linguagem e mundo se casarem, eu vou ser feliz.

Então prometo que vou dizer tudo que a linguagem jamais disse.

Tudo que nunca pôde ser dito.

Vou escrever um poema do tamanho do mundo.

Convoco as sereias para o banho e o concerto definitivo na ilha de Circe.

Menino, e já cantava ditirambos.

Hoje relembro o ritmo.

O dia em que a linguagem e o mundo se casarem, eu vou ser feliz.




VAZIOS URBANOS


Terra cheia de baldios de mar

lotes de horizonte

vazios urbanos que uma razão de arquiteto quer ocupar

baldios do olhar

vazios vazios

haverão de ficar




É LÓGICO MAS NÃO É VERDADE


Certo é prever o que não pode jamais ocorrer.

Pois, se não pode ocorrer, desocorrer também não pode,

diria Alice,

isto é,

“continua” ocorrendo, é lógico.

É lógico

mas não é verdade.


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4 de novembro de 2009

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17 de agosto de 2009

Alex Varella: Alexandria, O Caminho do Visível.






POEMA DO VISÍVEL


Uns vâo a Roma ver o papa

outros ficam cegos de uma vez.

Mas o superficial profundo dispensa toda referência a outros mundos.

Eu sou aqui

cantor do visível,

donde o sol baniu as almas e seu teatro de sombras e trucagens,

com que unicamente se comprazem.

- Até o poente do visível!






MAR


Mar é o além que há.

Além do mar não há.

O mar canta no modo das coisas varanda,

o além habita seu estar.

Mar é o além que há.

E o mais do mais não há.






NEGRA GREGA


Negra negra

Grega grega

de palavras & mercancias

no Porto das Palavras

de Alexandria

beleza é o ser visível

ser é visível

negra grega

da África Clássica

próprio da beleza é o aparecer






BARCELONAS


Barcelona é uma arte

Ora mar Ora cidade

Perdi meu último heterônimo em Barcelona

(Alex Pessoa)

Onde tudo tem dois nomes,

mundo heteronômico!

Barcelona é uma arte

Ora mar

Ora cidade.







O PINTOR DA PALETA DO MAR


Pintor da paleta do mar,

sem pincel e tinta,

entre o rosa-róseo e o laranja

toda cor é de comer

é de meu prazer

é de meu querer

é de meu pomar

do pintor da paleta do mar

o pintor da paleta do mar






O CÍRCULO VIRTUOSO DO PRAZER


Amor de superfície

venturoso olhar

mares de mar

O mais sentido dos sentidos

dizendo dizendo

O profundo é um efeito de superfície

O profundo é um efeito de superfície

O ser do gozo é gozo do olhar que é gozo de ser

O círculo virtuoso do prazer






DIA DA INAUGURAÇÃO DO MUNDO


O olhar faz o olho

O olho faz o mundo.

Hoje é dia da inauguração do mundo.

Nunca houve um tempo pré-existente ao olhar

O olhar é o inaugural dos mundos






POETA DA PALETA DO MAR


Sob a tenda do céu, o mar sempre ultramar

Pigmentos de coisas, não de cores

Para pintar como pintam os poetas

basta uma bisnaga de tintura de mar

uma porção de luz

e amarelos tubos de horizonte.

O poeta toma banhos de pigmentos de mar

Pegou a paleta emprestada com ele

não é propriamente poeta, é “do meio”, um intérprete,

poeta da paleta do mar.







PALAVRAS DE PINTAR


Inundado de mar,

eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas,

pois somente em sua paleta encontro as palavras de pintar.

Poeta do olhar poeta,

eu próprio sou

da paleta do mar.







MEDIDA


Mar que ao mar se aplica

Mar ao que tudo indica,

Língua:

-“La mer é uma grande atriz”

- “Basta um copo de mar para um homem navegar”

Mar é tamanho

Mas não tem tamanho

Mar é medida







PRAZERES DO VISÍVEL


Ver até o limite da visibilidade estonteante do visível

ver até o inesgotável do ver e do ser

ver e não crer

ver e ver até mais

e mais e mais e mais

até não poder mais ser

e desfalecer

(o corpo é a alma do corpo)

no poente do prazer







LÍNGUA DE SAL


Gôsto do ilimitado

do imensurável

do inabarcável

do salgado do mar.

A matéria é a alma das coisas,

tudo que faz andar.

Místico é o mundo

e as linguagens, a linguagem é um mar.






ALINHAVAR O MAR


A barca Natureza alinhavava o mar

Alinhavava/ alinhavava/ alinhavava o mar

- a palavra carioca tem mais orlas que o Rio de Janeiro

A barca Natureza alinhavava o mar

Alinhavava/ alinhavava/ alinhavava o mar

- Esses meus olhos nunca foram um instrumento

A barca Natureza alinhavava o mar

alinhavava/ alinhavava/ alinhavava o mar

- a paisagem é que me avista.

Alinhavava/ alinhavava...

-Passo o tempo em frente ao mar

o coração e os olhos vestidos de calção

alinhavava o mar/ alinhavava/ alinhavava/ alinhavava o mar

- o calado do barco é que navega.







LINGUAGENS


Na minha terra

(de si mesma terrosa),

as gaivotas não ficam assim, bailarinas “à flor da água”.

Cada gaivota é ela própria uma “flor da água”

e carrega seu peso,

além da terra d’água que nela floresce e cresce,

razões pelas quais ali se diz:

na flor da água.






POEMA


Imaginei um livro vidro

cerol de vidro

livro vivo

livro vidro

imaginei um livro

da mesma matéria etérea de se fazer imagem

ofício de fazer o corpo da palavra parecer linguagem.

Em justa homenagem ao aparente

esse tao livro não teria páginas,

para não obstruir o caminho do visível, etcétera, etcétera...







BARCELONA ANDANDO


Carne de litoral

viva de visível

em mais alto grau

o olho por fusível

de boulevard e bouleversement

fusível do olho na amplidão planície

entre o mar e o mar

de passos

desde a Pedrera

ao Maremagno






AL DI LÀ


Dolores Sierra
Vive em Barcelona na beira do cais...
(Wilson Batista e Jorge de Castro)


“Ara”

assim se diz “agora” em catalão

Ara :

a palavra chama

o tempo clama

à presença e consumação:

a palavra e sua brotação .

O poema fica al di là do coração






VIVER EM ÍTACA


Também eu vivi em Ítaca

Quando Ave era o nome de tudo que havia

E Circe habitava o Mesmo

ou um território contíguo, digo, um território contigo

ao território-mundo de Ulisses,

a luz do mar de Ítaca

na doméstica companhia dos feitiços de Circe







MARSHMELODY


Contra os que maldizem o mundo,

pra mim um mar de marshmellow,

azul como a cobertura do céu

no sorvete do sistema solar:

Marshmelody





ALEXANDRIAS

O resto é mar
(Tom Jobim)


Mar é um lugar-abraço,

sem espaço,

impossível de mapa.

Mar é sempre em excesso

nunca é o que resta

é sempre o mais

o mais do mar.

Em toda parte é uma Alexandria

( alexandrias... é melhor falar)

o mar é criatório de peixes

mas o mar de Alexandria é criatório de mar.


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Céu em cima / Mar em baixo






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16 de agosto de 2009

Alex Varella




Foto: Chico Rebbel

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